Quando o suficiente não é bastante

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Ele chegou na minha casa com uma mochila nas costas. “Fugi de casa, cara. Posso ficar aqui ?” Eu talvez tivesse até tido uma reação diferente, se não fosse ele o meu vizinho “da frente”. Obviamente, em sua fuga, ele não tinha pretenções de ir muito longe. Sentamos, perguntei o que estava acontecendo, e ele me contou suas insatisfações, dificuldades com os pais, irmãos, amigos, escola… meus amigos ja haviam me contado que ele já havia até pensado em tirar a própria vida com uma colher… (bom, ele não me disse como, nem eu quiz perguntar).

É assim que me lembro desta história. Era uma tarde de sábado, e todo o incidente deve ter durado em torno de uma hora. Por acaso estava só em casa, o que era raro nos fins de semana. Sempre havia alguém lá. Meus pais morreram quando era adolescente, e naquela época eu tentava morar só numa casa caindo aos pedaços, que herdei de do meu pai. Mas era raro ter menos de 3 pessoas comigo. Os meus amigos… estavam sempre lá. Nos fins de semana, todos iam dormir lá em casa, em um tipo de “acampamento”. Oito, as vezes dez pessoas. Não apenas isto, limpavam a casa, as vezes até faziam compras. Mas chegando a segunda, cada um pra sua casa. Tudo voltava ao normal.

Este meu amigo, era um destes companheiros de acampamento. Ele conhecia a minha casa… as goteiras, a porta que não trancava, o ralo entupido… entre outras peculiaridades. Na época, me perguntei, “quem em juízo perfeito desejaria fugir pra cá?“. Mas para ele , naquele momento, ali parecia ser uma melhor opção que sua própria casa. Depois de ouví-lo, chegamos juntos a conclusão, que que ele não queria de fato fugir de sua casa, muito menos pra minha. Queria apenas conversar.

A insatisfação me faz pensar que o suficiente não é o bastante. Pois nada é suficiente. Você já se pegou fazendo o que não queria, por não saber o que precisava? Já se viu depositando tempo e esforço no indesejado, por não conseguir consubstancializar o ansiado? Acredito que sim. É coisa estranha isto. Buscar o que não se deseja, achando que talvez esta, solucione a outra busca, a outra demanda… o verdadeiro anseio. Talvez você queira discutir as razões da insatisfação. Mas o fato é que este negócio de “i can´t get no satisfaction“, esta jornada de insatisfeita busca pelo contentamento nos leva imaginar que experiência do outro é melhor que a nossa, que a grama do jardim alheio é mais verde, que a vida foi mais justa com o vizinho do que comigo. Você já teve esta sensação de que a existência foi mais tolerante com outros do que com você ?. Eu já. Mas felizmente aprendi que estava errado.

A insatisfação me leva a uma busca pela resposta errada, e esta faz com que que tudo seja inadequado. As demandas da existência tornam-se insaciáveis. O Rei Salomão alegorizou que “a sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, dá“. A insatisfação é assim: fome devoradora. A boa notícia é que é possível saciá-la. O elemento certo, numa dose única, é suficiente pra preencher toda esta fome. E sim, este elemento existe.

Acredito que a satisfação vem quando o anseio encontra-se com o ansiado em dose suficiente. Nem mais, nem menos. Da mesma maneira que a sede se vai com o gole refrescante de água, não qualquer outra substância ou mistura, mas água em quantidade suficiente. A sua satisfação não vem através do muito tentar… Eu acredito que Deus é este elemento único, que de uma vez por todas satisfaz.

Aquele meu amigo voltou pra casa no começo da noite, sem que (assim me pareceu) ninguém desconfiasse de sua tentativa de fuga, e (quem sabe) suicídio. Mas continuou, buscando, buscando, buscando, de várias formas no indesejado a tão esperada satisfação. Não o vejo há alguns anos, e espero que finalmente tenha encontrado o suficiente.

Quanto a mim, hoje eu olho ao redor e vejo mais um vez que a satisfação mora debaixo do meu telhado, que a alegria dorme ao meu lado, que a esperança descança nos meus braços, que o contentamento me cerca, revelado naqueles que a quem amo. Hoje contento-me com a porção generosa que o Senhor me deu, pois além de me saciar, pude repartir.
Reparta você também a sua.

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3 Respostas para “Quando o suficiente não é bastante”


  1. Gravatar Icon 1 Ieda Sampaio Out 24th, 2007 at 5:26 am

    Isso se chama fe-li-ci-da-de (no teu caso).
    No caso do teu amigo… hum… Que massa relembrar coisas assim… Uma delícia. Não deixa de ser felicidade para nós. Sorrir é mesmo algo tentador.
    Meio maluquinho esse seu-nosso amigo. Rs.
    Beijocas, menino.

  2. Gravatar Icon 2 Joe Edman Out 25th, 2007 at 10:15 pm

    Quanto ao nosso amigo cara… ele não mudou nadinha! Parece que aquela ânsia por algum tipo de satisfação continua…

  3. Gravatar Icon 3 fabricia cavalcante Nov 4th, 2007 at 2:12 am

    Esse texto é maravilhoso, faz-nos refletir sobre o nosso coração, onde é depositado os sentimentos bons e ruins…as vezes a gente passa por essa falta de contentamento e acredido que isso vem quando me preencho muito mais dos prazeres do mundo do que da vontade perfeita de Cristo, pois neste mundo onde o capital quer ser o “regulador” das nossas vidas, olhamos para o outro e desejamos aquilo do outro…portanto não quero ser uma mulher insensata, mas sim desejo ser guiada pelos ensinamentos do Pai.

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