
Em 2003 o Diogo Mainardi, antes de sua paixão semanal pelo governo Lula, escreveu no periódico onde esparrama os seus rascunhos, um artigo, no mínimo equivocado, intitulado “Menos deus, por favor“. Ele fecha a redação afirmando: “Precisamos de menos deus”. Bom, aqui do meu palantir já vejo a turba de fãns deste genial colaborador da república preparando as pedras para a minha execução. Tudo bem, podem jogar. Por certo eu devo ter o direito de achar que ele foi infeliz na sua exposição, muito embora exista verdade em algumas de suas colocações.
Antes disto, quase seis anos atrás escrevi um texto sobre o crescimento evangélico no Brasil. Quando publicado no site da Jocum, uma revista de circulação nacional publicou uma matéria sobre o mesmo assunto. Lembro-me bem que a revista anunciava que o estado do Rio de Janeiro possuia naquela época maioria evangélica. A razão disto era em especial o crescimento das denominações Pentecostais e Neo-pentecostais, bem como de algumas igrejas históricas.
Alguns anos se passaram desde então, e as milhares de igrejas continuam se multiplicando pelo pais-a-dentro. São milhões. Se se alguns de vocês me permitem chover no molhado em dois parágrafos, o que isto quer dizer? Nada. Basta olhar os indicadores sociais de nossos dias, para perceber que o crescimento explosivo desta massa evangélica coopera em nada para a transformação do país. Aliás são estes mesmo números que denunciam uma igreja evangélica obesa, opaca e insossa. Mas isto não é previlégio exclusivo nosso. Se você já ouviu alguns trechos dos vários discursos pós 11 de setembro de Osama Bin Laden, perceberá que a maioria das acusações do fundamentalismo islâmico contra o mundo ocidental cristão, não repousa no fato de serem estes cristãos, mas sim de não serem cristãos o bastante.
Em Fortaleza no bairro onde trabalhei por muitos anos, uma igreja abre as portas a cada quarteirão, de uma ouve-se o culto da outra. A comunidade porém, continua a mesma. Hoje são artistas, atletas, políticos que se apresentam como evangélicos com a mesma naturalidade que se dizem flamenguistas ou corintianos. Para estes, ser evangélico significa nada. Quando eu era criança ninguém era evangélico. Éramos crentes. E ser crente, ou como diziam os antigos, “passar pra lei dos crentes” era uma atitude quase subversiva. Significava alguma coisa afirmar ser crente. Contudo, não vou aqui botar panos quentes nos problemas da igreja de minha infância. Tinhamos problemas. Eram outros, mas tinhamos.
O fato é que não é o evangelho de Jesus Cristo que tem crescido no Brasil. É a religião. Esta, tem várias caras, cores, coreografias e estilos. Até aparenta ter alguma virtude em si mesma. Por vezes apresenta-se como um ambiente saudável para educar os filhos. Porém ao final não transforma sociedade alguma. Sabem porque?
A religião exige perfeição. Já o evangelho, integridade. E como a religião não poderá levar ninguém a perfeição, ela mente. Apresenta uma realidade florida para satisfazer o homem, massageando-lhe o ego com promessas de consolo que não pode cumprir. Promete o placebo, o alívio, o extase em troca de sacrifícios. Ela estimula a vida dupla, pois o religioso percebe ser impossivel atingir a perfeição proposta, e assim como mentiu-lhe a religião, ele mente pra sí mesmo. O evangelho não exige perfeição, mas integridade, integralidade, não-divisão. Enquanto a religião dicotomisa o mundo, separa o sagrado e dominical do secular e cotidiano, o evangelho apresenta estes mundos como um só. Todos coexistentes na mente criadora de Deus.
A religião segue o fluxo da sociedade e não o contrário. Dança conforme a música. Segue o anseio da multidão e dará o que esta anseia. Isto explica o seu silêncio em determinadas ocasiões, e seus discursos acalorados em outras. Se a sociedade pinta a cara de preto a religião fará o mesmo. Já o evangelho preserva valores imutáveis. Não apenas um ou alguns, mas todos, integralmente. E estes em muitos momentos não serão o que deseja a multidão.
A religião demanda mérito. O evangelho, graça. É atraves do fazer por merecer que o anseio é alcançado na religião. E segundo ela, o mérito virá, a partir do que você faz e dá. E ainda traz consigo um attachment de culpa… pois a mesma religião que promete recompensar ao merecedor, ameaça punir e condenar ao que não cumpriu a sua parte do contrato. Por causa disto, para fugir desta culpa, o transgressor precisa se purgar, fazer mais, resgatar o mérito. No evangelho não há mérito. Deus não assinou um acordo de serviço e contra-partida. Ele dá vida, e o faz mesmo sabendo que o recebedor não é merecedor. Isto é graça.
O grande equívoco do Mainardi, (coitado, não deve estar nada satisfeito com o futebol do Kaká*) e deste presente século, é transformar Deus em religião. É confundir os programas evangélicos na tv, com deus na mídia. A religião é tentativa de “religare” o homem a deus, seja este último qualquer coisa. O evangelho é Deus revelado. Sim. Nas palavras de Paulo, o apóstolo, é o “poder de Deus para salvação do que crê“. O Brasil não precisa de mais religião. Disto temos de sobra e para todos os gostos, até do Mainardi, que deve ter a dele.
O Brasil precisa sim de Jesus.
* No artigo o Mainardi diz que está torcendo contra todos os atletas que expressam suas convicções religiosas. E diz estar muito satisfeito com o futebol do Kaká estar cada dia pior…




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