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Mamom quer mamar

5 abril 2010 320 Cliques One Comment

Perdoem-me pela canastrisse infame logo no título, porém não considero-me arrependido. Minha obsessão patológica por jogos de palavras é notória. Se isto lhe incomoda, recomendo desistir da leitura por aqui mesmo. Pra escrever sobre este tema trocafaltam não me dilhos.

Já vi, e ainda vejo, muita gente falando de Mamom, como o deus pagão do dinheiro sujo. Não tenho certeza, entretanto, se os interlocutores sabem do que estão falando. Acho, (repito: acho) que depois do Diabo, é a alcunha campeã em referências nos discursos evangélicos. Sei que no que se refere á cristandade, este é (senão “o”) um dos assuntos prediletos da “roda dos esclarecedores”, dos críticos da infantil teologia da prosperidade.  Descrevem a mesma, como culto a Mamom, chamam certos clérigos de mercadores, mercenários, pilantras e outros cognatos.

Não é novidade que Mamom encontrou na sociedade moderna uma fonte inesgotável de vestais, de gente que alimenta sua fome insaciável. Mas alguém aí sabe quem (ou o que) é Mamom? Antes que alguém responda com uma piada pronta, adianto que não é uma fruta tropical, nem aquele gordinho que recebe a chave da cidade no carnaval da bahia. Também não me refiro a uma certa entidade de nome interessante na américa de cima.

Aos desavisados, Mamom é um termo caldeu que aparece nos Evangelhos segundo Mateus e Lucas. Significa riqueza, avareza. Isto até onde me consta. Fora da tradição da igreja não encontra-se qualquer prova de que de fato tenha existido um ídolo com tal nome. Agostinho, Gregorio, Tomás de Aquino são alguns dos cristãos que mencionaram Mamom em seus escritos e ensinos concedendo-lhe status de divindade. Gregório chega a afirmar que Mammom é um outro nome para Belzebú.

Claro, longe de mim achar saber mais que os amigos supra-citados. Deus pagão ou não, fato é que Jesus mesmo advertiu do perigo de tornar-se servo (douleuein) de mamom. De transformar as riquezas em poste ídolo. E avisa que o resultado desta equação é muito simples: como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço é impossível servir a Deus e o dinheiro. Há de se abandonar um em detrimento do outro. Para mim este aviso basta.

Acredito que o dinheiro, em todas as suas diferentes apresentações, tem a sua parcela de importância no curso da história.Você nem  precisa da Bíblia do Malafaia, para descobrir que no Novo Testamento 90 passagens tratam sobre o tema. Das 49 parábolas 24 mencionam dinheiro. A título de comparação, são 27 o número de versos que mencionam o Espírito Santo e 47 a vida eterna. Por que? Simples, creio eu. Jesus ensinava tratando das situações do dia-a-dia. Dinheiro fazia parte do cotidiano, e não como algo ruim. Dinheiro não é mau. O que se faz com ele todavia nem sempre é bom. E o amor a ele é descrito como a raiz de todos os males. Eis aqui um fato inegável: Se observarmos os grandes conflitos da história, veremos que a luta por riqueza e poder são seus gatilhos, panos de fundo e objetivos finais.

É curioso ler os comentários dos leitores nos grande portais de notícias, sobre os casos de corrupção em nosso país. Se nossa honestidade fosse medida pela capacidade de falar em honestidade seriamos uma nação de integridade ímpar. Os caras descem a lenha nos corruptos em qualquer jornaleco de grêmio. Pena que nas ruas não se veja tal onda de integridade. Da mesma forma a blogosfera repete o fenômeno e produz infindável conteúdo crítico a respeito dos seguidores da corrente natimorta. Tempos atrás Edir Macedo publicou em seu blog um interessante desabafo, onde questiona se os que o criticam na realidade apenas desejam ocupar o seu lugar. Ele argumenta que, se  é um farsante, por Deus o abençoa?  – “Que Deus é este que abençoa o bandito e amaldiçoa os certinhos?” – completa.
Embora não concorde com a segunda parte do seu argumento, haja visto não acreditar que riqueza e poder sejam sinônimos de benção, posso concordar que a primeira parte de seu desabafo tem procedência.

Ao ler ou ouvir algumas destas críticas, pergunto-me se o que os leva a tais conclusões é a fome de justiça ou a fome de riqueza. Obviamente sem generalizar, parece-me que alguns atacam, criticam, apenas porque não podem, ou não conseguem fazer o mesmo. Odeiam as “instituições universais”, não pelo que eles representam, mas porque desejariam muito controlar o mesmo poder. E não tem “guts” para isso. Perdi a conta dos artigos descrevendo a cara-de-pau dos “crentes” da mídia que pedem dinheiro. É (P)Edir Macedo pra lá, Bispa (In)Sonia pra lá, Ap Val(DE-ME)iro prá acolá. Eles tem a cara-de-pau de, por exemplo, pedir cem mil pra cobrir o custo de um blog (jamais teria um, se o meu custasse tanto…). O crítico lê uma noticia destas, e gargalha pela abundância de munição adquirida. Não perde tempo apontando: “Viu só? É Mamom!!”

Mas se você lhe perguntar, quanto investiu do próprio bolso este ano, por exemplo, pela erradicação da exploração sexual infantil (não em paliativos apenas, mas também em ação preventiva) provavelmente silenciará. Ele pouco  sabe a respeito, pois serve a mamom tanto quanto os que ataca.

A cara-de-pau que eles afirmam não ter, explica-se não pela lisura ou por real anseio pela integridade, mas sobretudo porque outra coisa que cultuam mais que mamom é a própria imagem. Morrem de vergonha de arranhar a reputação e o bom nome a vista de todos. Mas se houver oportunidade de fazê-lo as escondidas, farão. É a sindrome de Gabeira (lembra?), que derruba Severino em nome da justiça, por causa dos cheques do restaurante, mas que usa patrimônio público em seu próprio benefício na farra das passagens. Quando tudo vem a tona a defesa é a mesma: “Todos dão passagem!”. Por trás das críticas ao culto a mamom, geralmente escondem-se outros adoradores das riquezas, esperando uma oportunidade de sorverem da mesma fonte, longe dos olhos de todos.

Recuso-me acreditar em pseudo-profetas que não prezam pelo mínimo de coerência entre o que dizem e o que vivem. Que produzem suas mensagens proféticas sobre ética detrás de cópias pirata de software, que baixam centenas de jogos, cds e dvds por ano, comprando nada ou quase nada, e acham tudo isto absolutamente normal, “pois todo mundo faz“. Que passam horas por semana compulsivamente alimentando a consciência na calada na noite com pornografia, e depois não sabendo porque não conseguem parar de se masturbar, afirmam “ora, só pode ser normal, todo mundo faz“.

Os adoradores de Mamom não vivem tão somente dentro dos templos da religiosidade. Estão em todo lugar: na vida pública, nos governos, nos círculos acadêmicos e nas transações comerciais. Muito embora as riquezas sejam temporais, quem as serve continua a seu serviço mesmo quando estas se vão. Aliás alguns dos seu mais fiéis suditos jamais desfrutarão das suas beneces. Passarão vida inteira como sangue-sugas vivendo a intensidade da miséria, suspirando pela sua ilusória chegada. Quem serve a Mamom, serve quando tem muito, serve quando tem nada.

Por fim, se você aguentou chegar até aqui, não pense que eu me oponho a confrontar os adoradores das riquezas e seus disparates, ou mesmo qualquer outro tipo de pecado.  Muito pelo contrário: eles devem sim ser confrontados, porém, da maneira bíblica e por razões bíblicas.

Acredito que o culto a mamom só acaba quando Deus ocupa o seu lugar devido no coração do homem. Não o lugar que a religião dá, mas o que Ele mesmo define como seu: O primeiro lugar. Onde habita Deus, existe generosidade e justiça. Sua mesa é suficiente a todos. Uma igreja que perde mais tempo  simplesmente censurando o rico do que efetivamente alcançando o homem, seja ele rico ou pobre, precisa se questionar se está dando a Deus o seu devido lugar.

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One Comment »

  • Jonathan Luz said:

    Mamon pra lá…Mamon pra cá!!! isso é real! Tenho aprendido que o dinheiro é idéia de Deus, mas devo utilizá-lo de tal forma que o mundo vejo que o dinheiro não é o meu Deus, mas Deus é o meu Deus. Devo utilizá-lo de tal forma que o mundo veja ( e eu tb) que o dinheiro não é meu tesouro, mas Jesus é meu tesouro. Temos que viver isso!

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