Padecendo no inferno mesmo

Charles e Valéria nos mandaram este texto do João Ubaldo. Mais pertinente impossível…=)

por João Ubaldo Ribeiro

Eu o conheço pouco. Ou talvez o conheça muito, embora não saiba de muitas coisas sobre ele. Ele tem seis filhos. Sei disso porque, no tempo em que eu andava solteiro e solitário por esses bares daqui, carregando dementemente um livro para ler numa mesa geralmente mal-iluminada, ele apareceu numa noite de quinta-feira e, desde essa noite, a gente sempre se via e batia papo. Na segunda dessas quintas-feiras, ele estava preocupado, exatamente porque ia nascer o sexto filho.

- Que bobagem - disse eu. - Ainda se fosse o primeiro, está certo que você ficasse preocupado. Mas o sexto, rapaz, vocês já são muito veteranos.
- Aí é que você se engana - disse ele. - Toda vez eu sou calouro. É sempre uma novidade.
- Claro - falei eu, imaginando que estávamos prestes a entrar num desses papos poéticos a que os cachaceiros em geral são habituados. - Sim - falei, caindo imediatamente no clima, pois sou de boa paz - é sempre uma experiência nova, a vida nunca se repete, é sempre um milagre novo. Mas o que eu queria dizer é que, apesar disso…
- Não é nada disso - suspirou ele. - Eu entendo tudo isso, não é nada disso. Eu atribuo esse negócio à televisão. Quer dizer, pelo menos parcialmente eu atribuo.
- O que é que você atribui à televisão?
- Esse negócio de eu nunca estar preparado para o nascimento do filho. Cada um é diferente, quer dizer, o nascimento é diferente e o que se faz depois é diferente, eu não agüento mais, estou um farrapo nervoso, é isto o que eu estou: um farrapo nervoso!

E, de fato ele parecia um farrapo nervoso. Até a pessoa que nunca viu um farrapo nervoso reconhece um, quando o encontra. Mas ele tinha razão. O primeiro filho dele - contou - se chama Marcus Vinicius (foi da geração Marcus Vinicius - esclareceu ele - no dia em que ele nasceu, nasceram mais quatro Marcus Vinicius no mesmo andar da maternidade). Marcus Vinicius nasceu de parto programado. Naquele tempo estava tudo muito tecnológico e as pessoas consideravam um resquício de barbarismo esse negócio de as mulheres esperarem a calada da madrugada para sentir contrações, sair às carreiras para o hospital e assim por diante. Então programaram tudo, tacaram a anestesia, fizeram a coisa toda muito cientificamente.

- Mas aí ela mudou bastante - disse ele. - Eu notei quando ela deu para não raspar as pernas, nem raspar debaixo dos braços, e deu para andar com umas saias de pano esquisito, umas saias rodadas. Acho que foram umas reportagens que ela viu ou então essas baianadas mesmo, isto aqui é uma praga, a verdade é esta. Atribuo muito dessa coisa também a essa baianada esta é que é a verdade.
- Mas isto influenciou o nascimento do filho seguinte?
- Filha. Lua Jaciara. Claro que influenciou! Ela resolveu ter parto completamente natural, queria parir em casa, a menina nasceu que parecia mais um esqueleto, por causa da macrobiótica que ela fez. Felizmente que eu não vi nada, porque desmaiei. Eu tive de ficar de mãos dadas com ela e aí desmaiei com os urros que ela dava. Acho que isto também contribuiu para ela mudar de idéia. Quando ela ficou grávida de Serguei, já estava decidida a fazer parto sem dor.
- E Serguei nasceu bem?
- Nasceu, nasceu! Só não nasceu sem dor, tenho de reconhecer. Acho que ela não fazia a respiração direito, deve ter sido porque eu ficava tonto na hora de acompanhar a respiração dela, às vezes também desmaiava, como na vez do parto natural. Felizmente, quando ela ficou grávida de Alessandra, eu não tinha mais que segurar a mão ou respirar junto, eu tinha mesmo era de ajudar a filmagem, porque ela queria guardar um filme do parto, foi no tempo em que todo mundo filmava parto. Foi meio chato, porque eu não tenho equipamento, nem sei filmar, e então foi uma confusão de gente na hora do parto e até hoje eu não tenho uma cópia desse filme e o desgraçado que filmou pegou essas cenas e botou num curta sobre a seca do baixo São Francisco, numa simbologia do renascer da terra, não sei o quê, e todo mundo que vai ver esse filme vê minha mulher parindo e eu lá com cara de besta, de bonezinho de médico e tudo.
- E daí em diante você teve de mandar filmar todos os partos?
- Não. Huamac-Tupã nasceu com ela acocorada. Esse foi o pior, ela ali acocorada e o médico dizendo “não tenho nada com isso, desse jeito eu não faço”, isto porque nós estávamos veraneando e o menino resolveu nascer antes do previsto, visto, talvez de tanto ela se acocorar para treinar, e então tivemos que fazer o parto com o médico do posto mesmo, mas Maquinho - o apelido dele é Maquinho - nasceu direito. Quase cai de cabeça no chão, mas nasceu.
Naquela quinta-feira, ele estava uma pilha, porque o próximo filho ia nascer no escuro (aliás, já nasceu e se chama João Paulo), com o acompanhamento de dois médicos: uma ginecologista amiga da mulher dele (que dizia que não garantia nada) e um obstetra amigo dessa ginecologista (que dizia que nunca tinha feito, mas garantia).

E hoje, quando o encontro por acaso numa barraquinha de cerveja e caranguejo aqui na praia da Pituba, ele me cumprimenta quase trêmulo. Vai ter o sétimo filho daqui a três meses. Parabéns, digo eu. Ah, diz ele, desta vez o menino vai nascer dentro d’água. Uma coisa eu lhe asseguro, diz ele, meus filhos sempre nascem na última moda. Neste sentido, nunca vão ter razão de queixa. Se for homem vai ser Charles, se for mulher vai ser Diana, diz ele.

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