CalhamWeb Sociedade Anônima
Quando era criança meu pai costumava me contar sobre a sua infância quando presenciou a chegada dos primeiros automóveis. Aquelas novas máquinas eram fascinantes, e ele mesmo converteu-se num entusiasta do ramo. Por muitos anos, foi dono da até então única oficina mecânica da cidade, até resolver investir no ramo de transporte particular. Tornou-se entre outras coisas dono de uma “frota de Taxis“, isto já no fim da década de 30. Eu mesmo cresci andando no Itamaraty guiado por meu pai, um carro de luxo da Willys fabricado a partir de 1966, um dos ícones dos primeiros anos da indústria automobilística brasileira.
O fato peculiar nesta história é que muito embora existissem alguns entusiastas que viam todo o potencial daqueles “calhambeques” mal construídos de alto consumo e baixa performance, por muito tempo a grande maioria da população não via lá nenhuma grande vantagem em ter ou usar um automóvel, aquela “coisa de gente rica”. Primeiro porque a infraestrutura nacional era inadequada, cheia de estradas ruins, mais apropriadas a cavalos e veículos de tração animal (Em alguns lugares do Brasil fato que ainda não mudou muito, nem depois do PAC). E somado a isto, que a malha ferroviária no Brasil já estava em franco desenvolvimento (isto sim, mudou…), ligando as principais cidades da república. Mas vejam só: apesar dos pessimistas, os automóveis haviam chegado de fato para ficar. O século XX testemunhou o grande boom na indústria automobilística, e no gosto do brasileiro pela novas máquinas. Hoje quem questionaria a sua importância?
Mas, porque escrevo sobre isto? Se um mero observador como eu pode divagar a respeito, acredito que estamos testemunhando um momento semelhante na história da WEB. Especialmente hoje quando vemos esta grande explosão da WEB 2.0 e suas múltiplas vias de mídias sociais convergentes. Entretanto já em 2009, este é ainda um universo de entusiastas, talvez pelas mesmas razões que por muitos anos o automobilismo padeceu da mesma situação: Falta de infraestrutura. Talvez você não tenha se dado conta, mas existem problemas mais difíceis de solucionar que o DNS da Telefônica. Em boa parte do mundo, conectividade ainda é um grande desafio. O continente Africano desfruta um conceito de “banda-larga” que não é uma coisa nem outra. Recentemente em Uganda numa reunião de colegas envolvidos com comunicação, a única forma de conexão com o “mundo exterior” era um único modem usb que garantia uma conexão de 4 a 7 k compartilhado entre os usuários. Em Mali, até o final de 2008 existia apenas um cybercafé em todo o país, tentando compartilhar todos os mistérios do cyberespaço através de uma conexão dial up. Tarefa difícil. Quem desejar serviço melhor do que este, precisa ser capaz de desembolsar milhares de dólares em uma conexão VSAT que sequer chega a impressionar.
A grande esperança de mudança vem com a chegada em julho deste ano, do SEACOM, um novo cabo submarino que está ligando a costa Africana com a Europa e Asia, prometendo terabytes a preços populares. Os primeiros testes reais acontecerão dia 27 de junho deste ano. Considere isto um efeito colateral de uma Copa do Mundo de futebol acontecer num país Africano.
Acredito que a WEB de hoje é apenas uma sombra, uma versão desregulada, lenta e ineficiente daquilo que ainda virá a ser. Os mecanismos de interação que vemos hoje são ainda geringonças para entusiastas. O Volney escreve sobre os nativos digitais, a turma que nasceu já fluente na linguagem digital, e cresceu usando celular, Iphone e outros gadgets moderninhos. Tenho pra mim que, assim como ocorreu com os automóveis, estes nativos é que serão capazes de proporcionar um salto no uso destas mídias, pois não partirão do paradigma de sua existência e sim de sua eficiência.
Outro fator que não deve ser ignorado é a necessidade de regulamentação. Consta que os primeiros motoristas habilitados surgiram no Brasil a partir de 1906. Antes da regulamentação os automóveis eram guiados por leigos, que mexendo aqui e ali conseguiam colocar a coisa para andar. Claro, isto necessariamente não mudou por causa da regulamentação… O uso regular dos automóveis tornou necessário o surgimento de legislação apropriada, que definisse o comportamento do motorista e do tráfego.
A recente explosão das mídias sociais criou uma via de mão dupla possibilitando a gente como eu ter acesso mais próximo ao pensamento de gente como o Teo Vitor, o “Fauno de Rondônia“ (foi mal Teo…=). Acho que você entendeu que estou falando aqui de contato entre estranhos. Por esta via, despretensiosamente já trafegam milhões, muito embora uma minoria saiba bem como funciona o trânsito da informação, suas regras e limites sejam estes legais ou morais.
Existem aqueles que se queixam hoje de ser a WEB uma terra de ninguém, anônimos, sem fronteiras, sem censura, sem limites. Já outros vêem nisto seu grande trunfo. O Thiago escreveu sobre uma tal “Internet socialista“, um front de ausência de propriedade privada, controle de todos, liberdade de expressão e de conhecimento comum. Os entusiastas da WEB 2.0 afirmam que esta representa o fim da assim chamada “Ditadura dos Experts“, onde o conhecimento deixou de ser uma comodity de alguns para ser um bem de todos. Dito desta forma soa até bem positivo. Entretanto o grande perigo está em substituir a “ditadura dos experts” pelo “totalitarismo dos idiotas“. Um mundo onde o profissional formado perdeu lugar para o leigo nem sempre bem informado. Note por favor que não sou expert em nada. Como disse algumas linhas acima, sou apenas um observador e falo como tal. Mas é inegável o fato que por exemplo o número de Blogs na Internet dobra a cada seis meses, e você não precisa ser um leitor de Andrew Keen para perceber que um grande numero destes são membros inconscientes (ou não) de uma tribo de (nas palavras de Keen) cleptomaníacos intelectuais. O mesmo Thiago que mencionei acima Twitou recentemente sobre um artigo de sua livraria cinicamente surrupiado e publicado sem qualquer aviso noutro boteco virtual. No mundo das mídias sociais, qualquer um pode dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto, como se fosse profundo conhecedor do tópico abordado. E muitas vezes, inverdades são categoricamente afirmadas e defendidas como se fossem a veemente descrição da realidade.
A onda da Web 2.0 transformou desconhecidos em potenciais formadores de opinião. Está nos ensinando a confiar em estranhos, suas afirmações e argumentações, sem que saiba-se qualquer outra coisa a respeito de quem o diz. Pessoas, mudam de confissão religiosa, opinião política e até opção sexual, tomando como base a opinião do spok2009, aquele cara legal que conheceram no orkut, ou da nikita17, aquela (acredita-se) menina que escreve no neocyberpunk.blogspot.com. São todos estranhos, guiando estranhos, algumas vezes a armadilhas ou mesmo a lugar nenhum. Isto não pode ser ignorado.
A regulamentação da Web é iminente e, penso eu, vital para garantir a sua expansão. Não falo aqui da Lei Azeredo ou do Projeto do Bispo Gê, que é um Crtl+C de uma lei francesa já considerada inconstitucional em sua primeira leitura pelo Conselho Constitucional daquele país. Falo de limites, definições de certo e errado, necessário e inconveniente, lícito e ilícito, legal e criminoso. Claro, os grandes opositores da infantil lei do Senador Azeredo não estão preocupados com a proibição do uso de P2P. Alguns embora façam uso de clientes pra baixar centenas de cds e dvds, sequer sabem o que, ou como funciona. Estão preocupados sim em perder o anonimato, esta pseudo capacidade de surfar pela web sem que ninguém saiba o que é feito nas longas madrugadas. Estão sim temerosos de que seus habitos virtuais tornem-se públicos e do conhecimento de todos. O que a maioria não sabe é que não existe anonimato. Onde quer que você vá, deixa rastros virtuais que identificam sua presença. A questão a ser definida é quem tem acesso a tais informações e sob quais circunstâncias.
Eu observo este período da história, ainda como mais um entusiasta deste calhambeque que chamamos de World Wide Web. Acredito que este veículo é peça importante para que completemos esta Grande Comissão em que estamos envolvidos. Mas você porventura pode discordar de todos os meus argumentos e em seus comentários provar por a + b que estou errado, convencendo também a todos os próximos leitores. Bom, assim caminha o mundo dos formadores de opinião.









Pois esse era um dos posts meus que ia pro saco, como acabei de tuitar, mas não o fiz para não deixar seu link cair no limbo.
Abs!
@Thiago Bomfim – Quanta Gentileza..=)Abraços pra vc tb.
Não sei o que é pior: chamar-me meio homem ou meio bode. Na qualidade de bicho nem bode inteiro sou… =)
Grande Adriano,
É por aí mesmo. Temos que começar a re-pensar nossos conceitos e quebrar arquetipos antigos.
A grande vantagem é que a WEB 2.0 não é simplesmente um meio (mídia) ou uma ferramenta – ela é uma linguagem, um estilo de vida, um jeito de ser humano: com voz, conversas, individualidade. Isso é uma grande benção para quem valoriza o resgate de valores humanos – e os cristãos devem estar na dianteira disso.
Não devemos deixar de lado os outros desafios – há países e rincões pobres no nosso Brasil que demandam cuidados mais básicos.
Mas para os ‘urbanóides’ tá diante de nós o desafio de nos envolvermos com a nova geração de maneira sábia e relevante. E nos fazermos digitais para quem já é digital (parafraseando).
Boa levantada de bola pro assunto. Vamos conversando …
O reino de Deus pode ser muuuuito beneficiado com “os nativos” e suas visões da tecnologia, está ai (mais) um desafio para os líderes de jovens nas comunidade cristãs. Envolvê-los com missões e propor novas soluções no que, para eles, não é uma novidade, mas sim uma linguagem (como disse o Volney).
Falando nisso, já leu sobre o projeto Bee da Unicef. Li aqui no Weblog do Tiago Dória.
Abraços, bom texto!
@riccoevgt
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