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O Casarão da Avenida Religare – Parte II

28 março 2009 94 Cliques One Comment

Parte II – A casa e o Rei

O grande alvoroço em frente a cerca branca parecia aumentar a cada minuto. Ao longo da parte interna do pátio, imóveis e separados por alguns metros de distância, soldados portando armas antigas observavam a tudo silenciosamente. A presença deles, aparentemente, não incomodava a multidão. A cerca era tão baixa que muitos passavam por cima dela sem qualquer esforço, entrando e saindo da propriedade a todo momento. Alguns aproximavam-se curiosos, outros afastavam-se aparentando decepção e raiva.

Ouvia-se gritos, palavras de ordem e insultos. Outros que também portavam armas, lançavam olhares ameaçadores para o lado de dentro.  Pareciam esperar uma oportunidade para iniciar um ataque ou coisa parecida.  Em meio a toda aquela confusão vi algumas pessoas a frente da cerca que tentavam uma aproximação com a multidão. Tentavam  desenvolver algum tipo de diálogo. Serviam água, outros distribuíam víveres, outros apenas  sorriam. Era um dia quente, e ainda lutava contra o forte cheiro que tentava me roubar os sentidos. Parecia  estar impregnado na minha pele. Contudo ninguém mais na avenida mostrava-se incomodado. Tive a impressão de que eu era o único a percebê-lo. Teria isto alguma relação com a voz e a experiência de momentos antes?

Uma senhora de cabelos grisalhos e bem penteados notou minha aproximação e prontamente serviu-me um copo de água fresca, que aceitei sem cerimônia. Ela foi gentil e perguntou meu nome. Perguntou se o cheiro me incomodava. Respondi que sim. Em seguida perguntou-me se havia ouvido a voz de Deus.

Não entendi como ela sabia sobre a voz. Não sabia o que responder. Ela completou explicando-me que o cheiro que sentia não vinha de outro lugar, mas sim de mim mesmo. Ninguém mais podia senti-lo, apenas eu. O cheiro da avenida era meu próprio odor. Todos estes anos nunca havia sequer pensado nesta possibilidade. Em seguida, disse-me que ouvir a voz de Deus é algo que deflagra certas reações sem volta na vida da gente. Quando surpreendidos pelo seu convite, somos confrontados pela realidade de quem de fato somos, e impulsionados a responder ao seu  convite. Alguns vem ao seu encontro. Outros seguem seu caminho, vivendo como se nada tivesse acontecido.

Muito embora nunca tivéssemos conversado antes, senti sinceridade nas suas palavras. Perguntei-lhe o que  achava que eu devia fazer, e ela me respondeu que a decisão era minha, mas que deveria aceitar o convite, seja este qual for. Contei-lhe que acreditava que Deus havia me dito para vir encontrá-lo este endereço hoje. Ela sorriu. - Você parece ter sido convidado para a festa, então. Quer conhecer o dono da casa? - indagou. Respondi que sim.  Já me preparava para passar sobre a cerca como todos os outros, mas a senhora bondosamente me impediu dizendo: - Porque não usamos a porta?

Até aquele momento não havia visto porta alguma, apenas a cerca. Ela fez sinal para que a seguisse, e caminhamos por toda a extensão da frente da propriedade. Enquanto caminhávamos, contou-me que aquela propriedade pertencia ao grande Rei. Ele estava de  casamento marcado, mas havia saido numa longa viajem. Antes porém havia comprado aquele lugar e lá plantara um jardim para a sua Noiva, onde esta pudesse aguardar o seu retorno para as bodas. Porém, passado algum tempo, certos súditos ficaram com receio de deixar a moça exposta ao calor do dia e ao tempo, e resolveram construir-lhe uma casa. Desta forma ela nunca teria de sair dali, e poderia aguardar segura o Grande Rei. Assim surgira o casarão. Ainda disse que recentemente muitos avisos do Rei haviam chegado anunciando seu retorno a qualquer momento. Por isto todos estavam em grande expectativa, preparando os últimos detalhes da grande festa.

Chegamos  ao fim da cerca, sob a sombra de uma figueira, onde erguia-se uma estreita porta de madeira antiga, ornamentada com entalhes minuciosos. Não havia ferrolho ou cadeado. Estava aberta. Enquanto caminhávamos, vi que muitos outros também entravam pela mesma. Alguns, como eu, vinham guiados por alguém, já outros sozinhos.

Paramos em frente a porta, e a senhora despediu-se dizendo que ainda nos veríamos  no casamento. Depois de um abraço, sorriu e afastou-se voltando ao lugar onde estava antes. Caminhei adiante passando pela porta. Uma estradinha levava até a frondosa figueira onde  debaixo dela, sentado à uma mesa de jardim, um homem sorridente com um macacão de jardineiro aguardava. Levantando-se saudou-me com uma abraço.

- Seja bem vindo! Sua presença era aguardada!
- Como assim? – Perguntei surpreso – Você sabia que eu viria? E hoje?
- Claro, respondeu o jardineiro – Seu nome estava no livro de convidados. Você chegou bem na hora – Disse isto apontando para um livro em cima da mesa. Era um volume antigo, de páginas amareladas. Aproximei-me e lá vi o meu nome, escrito em grandes letras vermelhas, ao lado de uma inscrição de  dia e hora.

- E quem escreveu isto? – perguntei.
- Você não sabe? O Grande Rei! E deixou isto aqui para você também. Todos os convidados recebem uma igual.

Tirou de uma caixa uma bússola prateada, nova em folha. Tinha meu nome, além de inscrições e entalhes como os que havia visto na porta.

- Siga a direção que o ponteiro da Bússola apontar. Ela levará você ao exato local do casamento.
- Casamento? Mas… eu não tenho roupas adequadas para um casamento!
- Não se preocupe. O Grande Rei pensou em tudo. Apenas siga a bússola.

Agradeci, e com um longo suspiro tentei dizer que ainda não estava entendendo tudo o que estava acontecendo, mas quando fiz isto, dei-me conta de que o forte odor havia desaparecido.  Em seu lugar uma suave brisa trazia um perfume de jasmim. Abri a bússola e o ponteiro indicava a direção do pátio, onde ao fundo erguia-se o enorme casarão.

Mas o que Deus tinha a ver com tudo isto?

Continua

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One Comment »

  • Daniel said:

    Paz e Graça!
    Há algum tempo atraz assisti um filme chamado: “O elo perdido”. Não sei se você já assistiu! O jovem médico escocês Jamie Dodd se aventura pela inexplorada África equatorial na companhia da aventureira Elena Van Den End, para capturar pigmeus.
    De volta á cidade na companhia de Toko e Likola (Os pigmeus), o médico desentende-se com seus dois colegas de pesquisa, determinados a provas o elo perdido da espécie humana, quando defende que o casal de pigmeus demonstra inteligência e sentimentos humanos. Vítima da segregação dos amigos, do escárnio da comunidade cientifica e da crueldade humana, Jamie vê seus amigos pigmeus serem expostos no zoológico local e submetidos, como ele própio, à mais injusta humilhação.
    A solidariedade que vai reuni-los será de laços muito fortes, os laços da própia humanidade. Uma aventura antropológica do cineasta francês Régis Wargnier em busca do O elo perdido dos valores mais nobres do ser humano.Filme de abertura do Festival de Berlim em 2005.

    Então cara aqui é a sinopse!

    Hoge olhando para o rosto de uma pessoa amada, essa da qual fiquei na responsabilidade de cuidar por causa de suas necessidades. Pensei em algo que uma amiga me disse, acho que sem maldade: Que essa mesma pessoa era uma pedrinha para minha coroa! Cara! Pedras preciosas tem valor, não fala, não sorri, não pensa, tem história, mas, talvez sua história não é de muita importância, é só uma pedra, não é humano.
    Nada contra esse tipo de linguagem, mas, é apenas para pensar, essa pessoas da qual falo é importante para mim, sei de sua história, das vezes que ela me protegeu, sei como era o seu-meu quintal com rosas brancas e umas bananeiras, não muitas, as quais eu brincava debaixo de sua sombra. Sei de um de seus programas predilecto o qual ela escutava pela manhã. Sei do gosto do seu café, hoge, não é ela que o faz mais meu coração ainda se alegra em tomar aqueles goles de café.

    Cara eu sei que não é tão simples assim: Mais falei pra Deus: É isso que quero: Amigos, companheiros, ser sensivel a Deus e as outras pessoas, não ser um semi-deus, e sim alguem como qualquer outro, como sempre fui.

    Não sei se deu pra escrever tudo que senti

    Como o Jamie Dodd, do filme, quero têr não cobaias, pedrinhas de coroa(Dentro do significado desse texto), pessoas para expor nos zoológicos da vida. Não é fácil, mais tenho algo em mim que me leva a escolher isso.

    Valeu cara!

    Que Deus te abençõe com esse texto!

    Nois se esbarra por ai!

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