O Casarão da Avenida Religare – Parte I
Parte I – Statio
A minha vida inteira havia passado pela Avenida Religare, a imensa via que cortava todas as ruas da cidade. Não sei ao certo se minhas memórias infantis eram inexatas, mas por alguma razão recordo-me da avenida no seu início como um lugar pacato e seguro. Algumas árvores, muitas outras crianças e muitos, muitos adultos, sempre atentos aos nossos passos. Estas lembranças todavia, não descreviam mais a paisagem atual. O ambiente pacato, se um dia havia existido, agora tornara-se extremamente movimentado. Ambulantes instalaram-se nas calçadas vendendo produtos de toda espécie: Amuletos, souvenirs, catalizadores de boa sorte, condutores de infortúnio, barbitúricos para consciência, títulos de propriedade na vida além, garrafadas e elixires dos mais diversos, e muitos, muitos outros artigos.
A Religare era ladeada por casas de muros altos e a vizinhança era conhecidamente sombria e perigosa. Pedestres reticentes e peregrinos maltrapilhos ao lado de gente em trajes elegantes caminhavam de um lado para o outro no calçamento irregular, disputando espaço com carros, carruagens e animais de todos os tipos. Caminhavam como quem procura um endereço desconhecido, tentando identificar placas e sinais em idiomas esquecidos. Constantemente entravam e saiam de uma casa para outra, na esperança de encontrar o endereço certo. Mas como saber? Todos os dias, seguia-se a mesma coisa: Balbúrdia, gritos, confusão. Risos, choro e gemidos. Idosos carregando flores, homens de branco, mulheres de preto. Vez por outra cavaleiros com espadas manchadas de vermelho abriam caminho por entre a multidão, seguidos por soldados carregando bandeiras e gritando palavras de ordem.
Em cada esquina, acaloradas discussões e debates sobre o que acontecia por detrás dos altos muros das casas, disputavam a atenção dos transeuntes. Acusações mútuas, eram intercaladas com defesas passionais. Algumas vezes falavam sobre Deus. Mas eram tantas e tão diferentes as descrições que ficava difícil acreditar que estavam falando da mesma coisa. Me perguntava: ” Onde estaria Deus? Teria Ele algum interesse nos debates da Religare?”
Sempre ouvia-se os relatos de gente atacada por salteadores e bandidos, que escondiam-se nas sombras à espreita de vítimas inocentes, pois sabia-se que muito dinheiro circulava pela avenida nas bolsas dos peregrinos. E aquilo que não era levado pelos salteadores, ficava misteriosamente nas casas que visitavam.
E ainda havia aquele forte cheiro no ar. Uma mistura de fumaça, incenso, flores, perfumes, suor… e sangue. Mas depois de andar lá por algum tempo, você fatalmente deixava de incomodar-se com os odores. Assim aconteceu comigo, também um andarilho na mesma via.
Um dia em meio a gritaria comum de um dia como todos os outros, ouvi a voz de Deus me chamar. Se me perguntarem como sabia que era Deus, respondo que apenas sabia. Havia uma familiaridade peculiar na voz que minha alma reconheceu de pronto. Como o som do carro do meu pai entrando na garagem, o vento anunciando o cheiro de chuva na varanda de casa, como saudade de um lugar nunca visto. Ele chamou-me pelo nome, achou-me no meio da multidão. Subitamente um suspiro de intensidade, um sentimento de eternidade inundou-me a alma. Seria possível? Existiria tal coisa?
Não sei quanto tempo durou aquela “epifania”, contudo, minha contemplação foi bruscamente interrompida por fortes náuseas. De súbito, o cheiro, a que pensara eu já estar acostumado, havia tornado-se tão insuportável, ao ponto de não aguentar-me de pé. Cai enquanto vi o mundo girar diante dos meus olhos. Meu peito ardia, tinha dificuldades de respirar e recobrar o controle sobre mim. Neste momento, ouvi mais uma vez a familiar voz de antes acalmando minha agonia. Ele convidou-me a encontrá-lo e deu-me um endereço. Foi ai que tudo escureceu.
Acordei sentado numa calçada, cercado por curiosos que ofereciam-me chá, livros e tratamentos espirituais. Aos poucos, recobrava a consciência e senti o ar lentamente entrando em meus pulmões. Mas o cheiro continuava. Vinha e ia com o vento e era muito mais forte…. nauseante como amoníaco, entorpecente como éter. Dei-me tempo suficiente para conseguir enxergar com lucidez e em seguida recebi ajuda para colocar-me de pé enquanto tentava educadamente recusar todos as demais ofertas de auxilio a preços módicos.
O que havia acontecido? Na multidão nada havia mudado. Todos caminhavam e falavam da mesma maneira, mas algo ressoava diferente dentro de mim, que permanecia parado. Não conseguia aguentar o cheiro. Não conseguia esquecer a voz. Era Deus, e eu sabia que precisava ir ao seu encontro. E o endereço que Ele havia me dado, era ali mesmo naquela avenida.
Caminhei como pude algumas centenas de metros até chegar ao endereço. Já havia passado por ali antes, mas talvez por causa da constante confusão, nunca havia prestado a devida atenção àquele lugar. Diferente das outras casas, deparei-me com uma cerca branca e baixa que separava a avenida de um extenso pátio interno onde ao fundo via-se um grande casarão numa colina de grama verde-oliva. Em frente a cerca, uma enorme confusão com gente enfurecida protestando, carregando faixas e cartazes .
Todo este tempo Deus morava na Avenida Religare? E naquele endereço? Como isto seria possível?
Continua









Bela parábola, Adriano. Interessante a distribuição dos elementos pela Avenida.
Esperando a continuação…
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