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	<title>Jocumeiros &#187; Contos</title>
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		<title>O Casarão da Avenida Religare &#8211; Parte II</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 23:40:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Estevam</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Parte II &#8211; A casa e o Rei
O grande alvoroço em frente a cerca branca parecia aumentar a cada minuto. Ao longo da parte interna do pátio, imóveis e separados por alguns metros de distância, soldados portando armas antigas observavam a tudo silenciosamente. A presença deles, aparentemente, não incomodava a multidão. A cerca era tão baixa que muitos passavam por cima dela sem qualquer esforço, entrando e saindo da propriedade a todo momento. Alguns aproximavam-se curiosos, outros afastavam-se aparentando decepção e raiva.
Ouvia-se gritos, palavras de ordem e insultos. Outros que ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Parte II &#8211; A casa e o Rei</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O grande alvoroço em frente a cerca branca parecia aumentar a cada minuto. Ao longo da parte interna do pátio, imóveis e separados por alguns metros de distância, soldados portando armas antigas observavam a tudo silenciosamente. A presença deles, aparentemente, não incomodava a multidão. A cerca era tão baixa que muitos passavam por cima dela sem qualquer esforço, entrando e saindo da propriedade a todo momento. Alguns aproximavam-se curiosos, outros afastavam-se aparentando decepção e raiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvia-se gritos, palavras de ordem e insultos. Outros que também portavam armas, lançavam olhares ameaçadores para o lado de dentro.  Pareciam esperar uma oportunidade para iniciar um ataque ou coisa parecida.  Em meio a toda aquela confusão vi algumas pessoas a frente da cerca que tentavam uma aproximação com a multidão. Tentavam  desenvolver algum tipo de diálogo. Serviam água, outros distribuíam víveres, outros apenas  sorriam. Era um dia quente, e ainda lutava contra o forte cheiro que tentava me roubar os sentidos. Parecia  estar impregnado na minha pele. Contudo ninguém mais na avenida mostrava-se incomodado. Tive a impressão de que eu era o único a percebê-lo. Teria isto alguma relação com a voz e a experiência de momentos antes?</p>
<p style="text-align: justify;">Uma senhora de cabelos grisalhos e bem penteados notou minha aproximação e prontamente serviu-me um copo de água fresca, que aceitei sem cerimônia. Ela foi gentil e perguntou meu nome. Perguntou se o cheiro me incomodava. Respondi que sim. Em seguida perguntou-me se havia ouvido a voz de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;">Não entendi como ela sabia sobre a voz. Não sabia o que responder. Ela completou explicando-me que o cheiro que sentia não vinha de outro lugar, mas sim de mim mesmo. Ninguém mais podia senti-lo, apenas eu. O cheiro da avenida era meu próprio odor. Todos estes anos nunca havia sequer pensado nesta possibilidade. Em seguida, disse-me que ouvir a voz de Deus é algo que deflagra certas reações sem volta na vida da gente. Quando surpreendidos pelo seu convite, somos confrontados pela realidade de quem de fato somos, e impulsionados a responder ao seu  convite. Alguns vem ao seu encontro. Outros seguem seu caminho, vivendo como se nada tivesse acontecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito embora nunca tivéssemos conversado antes, senti sinceridade nas suas palavras. Perguntei-lhe o que  achava que eu devia fazer, e ela me respondeu que a decisão era minha, mas que deveria aceitar o convite, seja este qual for. Contei-lhe que acreditava que Deus havia me dito para vir encontrá-lo este endereço hoje. Ela sorriu. <em>- Você parece ter sido convidado para a festa, então. Quer conhecer o dono da casa?</em><em> </em>- indagou. Respondi que sim.  Já me preparava para passar sobre a cerca como todos os outros, mas a senhora bondosamente me impediu dizendo: <em>- Porque não usamos a porta?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Até aquele momento não havia visto porta alguma, apenas a cerca. Ela fez sinal para que a seguisse, e caminhamos por toda a extensão da frente da propriedade. Enquanto caminhávamos, contou-me que aquela propriedade pertencia ao grande Rei. Ele estava de  casamento marcado, mas havia saido numa longa viajem. Antes porém havia comprado aquele lugar e lá plantara um jardim para a sua Noiva, onde esta pudesse aguardar o seu retorno para as bodas. Porém, passado algum tempo, certos súditos ficaram com receio de deixar a moça exposta ao calor do dia e ao tempo, e resolveram construir-lhe uma casa. Desta forma ela nunca teria de sair dali, e poderia aguardar segura o Grande Rei. Assim surgira o casarão. Ainda disse que recentemente muitos avisos do Rei haviam chegado anunciando seu retorno a qualquer momento. Por isto todos estavam em grande expectativa, preparando os últimos detalhes da grande festa.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos  ao fim da cerca, sob a sombra de uma figueira, onde erguia-se uma estreita porta de madeira antiga, ornamentada com entalhes minuciosos. Não havia ferrolho ou cadeado. Estava aberta. Enquanto caminhávamos, vi que muitos outros também entravam pela mesma. Alguns, como eu, vinham guiados por alguém, já outros sozinhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Paramos em frente a porta, e a senhora despediu-se dizendo que ainda nos veríamos  no casamento. Depois de um abraço, sorriu e afastou-se voltando ao lugar onde estava antes. Caminhei adiante passando pela porta. Uma estradinha levava até a frondosa figueira onde  debaixo dela, sentado à uma mesa de jardim, um homem sorridente com um macacão de jardineiro aguardava. Levantando-se saudou-me com uma abraço.</p>
<p style="text-align: justify;">- Seja bem vindo! Sua presença era aguardada!<br />
- Como assim? &#8211; Perguntei surpreso &#8211; Você sabia que eu viria? E hoje?<br />
- Claro, respondeu o jardineiro &#8211; Seu nome estava no livro de convidados. Você chegou bem na hora &#8211; Disse isto apontando para um livro em cima da mesa. Era um volume antigo, de páginas amareladas. Aproximei-me e lá vi o meu nome, escrito em grandes letras vermelhas, ao lado de uma inscrição de  dia e hora.</p>
<p>- E quem escreveu isto? &#8211; perguntei.<br />
- Você não sabe? O Grande Rei! E deixou isto aqui para você também. Todos os convidados recebem uma igual.</p>
<p>Tirou de uma caixa uma bússola prateada, nova em folha. Tinha meu nome, além de inscrições e entalhes como os que havia visto na porta.</p>
<p style="text-align: justify;">- Siga a direção que o ponteiro da Bússola apontar. Ela levará você ao exato local do casamento.<br />
- Casamento? Mas&#8230; eu não tenho roupas adequadas para um casamento!<br />
- Não se preocupe. O Grande Rei pensou em tudo. Apenas siga a bússola.</p>
<p style="text-align: justify;">Agradeci, e com um longo suspiro tentei dizer que ainda não estava entendendo tudo o que estava acontecendo, mas quando fiz isto, dei-me conta de que o forte odor havia desaparecido.  Em seu lugar uma suave brisa trazia um perfume de jasmim. Abri a bússola e o ponteiro indicava a direção do pátio, onde ao fundo erguia-se o enorme casarão.</p>
<p><em>Mas o que Deus tinha a ver com tudo isto?</em></p>
<p><strong>Continua</strong><em><br />
</em></p>
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		<title>O Casarão da Avenida Religare &#8211; Parte I</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Mar 2009 11:27:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Estevam</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Parte I &#8211; Statio
A minha vida inteira havia passado pela Avenida Religare, a imensa via que cortava todas as ruas da cidade. Não sei ao certo se minhas memórias infantis eram inexatas, mas por alguma razão recordo-me da avenida no seu início como um lugar pacato e seguro. Algumas árvores, muitas outras crianças e muitos, muitos adultos, sempre atentos aos nossos passos. Estas lembranças todavia, não descreviam mais a paisagem atual. O ambiente pacato, se um dia havia existido, agora tornara-se extremamente movimentado. Ambulantes instalaram-se nas calçadas vendendo produtos de ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Parte I &#8211; Statio</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A minha vida inteira havia passado pela Avenida Religare, a imensa via que cortava todas as ruas da cidade. Não sei ao certo se minhas memórias infantis eram inexatas, mas por alguma razão recordo-me da avenida no seu início como um lugar pacato e seguro. Algumas árvores, muitas outras crianças e muitos, muitos adultos, sempre atentos aos nossos passos. Estas lembranças todavia, não descreviam mais a paisagem atual. O ambiente pacato, se um dia havia existido, agora tornara-se extremamente movimentado. Ambulantes instalaram-se nas calçadas vendendo produtos de toda espécie: Amuletos, souvenirs, catalizadores de boa sorte, condutores de infortúnio, barbitúricos para consciência, títulos de propriedade na vida além, garrafadas e elixires dos mais diversos, e muitos, muitos outros artigos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Religare era ladeada por casas de muros altos e a vizinhança era conhecidamente sombria e perigosa. Pedestres reticentes e peregrinos maltrapilhos ao lado de gente em trajes elegantes caminhavam de um lado para o outro no calçamento irregular, disputando espaço com carros, carruagens e animais de todos os tipos. Caminhavam como quem procura um endereço desconhecido, tentando identificar placas e sinais em idiomas esquecidos. Constantemente entravam e saiam de uma casa para outra,  na esperança de encontrar o endereço certo. Mas como saber? Todos os dias, seguia-se a mesma coisa: Balbúrdia, gritos, confusão. Risos, choro e gemidos. Idosos carregando flores, homens de branco, mulheres de preto. Vez por outra cavaleiros com espadas manchadas de vermelho abriam caminho por entre a multidão, seguidos por soldados carregando bandeiras e gritando palavras de ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Em cada esquina, acaloradas discussões e debates sobre o que acontecia por detrás dos altos muros das casas, disputavam a atenção dos transeuntes. Acusações mútuas, eram intercaladas com defesas passionais. Algumas vezes falavam sobre Deus.  Mas eram tantas e tão diferentes as descrições que ficava difícil acreditar que estavam falando da mesma coisa.  Me perguntava: &#8221; <em>Onde estaria Deus? Teria Ele algum interesse nos debates da Religare?</em>&#8221;<br />
Sempre ouvia-se os relatos de gente atacada por salteadores e bandidos, que escondiam-se nas sombras  à espreita de vítimas inocentes, pois sabia-se que muito dinheiro circulava pela avenida nas bolsas dos peregrinos. E aquilo que não era levado pelos salteadores, ficava misteriosamente nas casas que visitavam.</p>
<p style="text-align: justify;">E ainda havia aquele forte cheiro no ar. Uma mistura de fumaça, incenso, flores, perfumes, suor&#8230; e sangue. Mas depois de andar lá por algum tempo, você fatalmente deixava de incomodar-se com os odores. Assim aconteceu comigo, também um andarilho na mesma via.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia em meio a gritaria comum de um dia como todos os outros, ouvi a voz de Deus me chamar. Se me perguntarem como sabia que era Deus, respondo que apenas sabia. Havia uma familiaridade peculiar na voz que minha alma reconheceu de pronto. Como o som do carro do meu pai entrando na garagem, o vento anunciando o cheiro de chuva na varanda de casa, como saudade de um lugar nunca visto. Ele chamou-me pelo nome, achou-me no meio da multidão. Subitamente um suspiro de intensidade, um sentimento de eternidade inundou-me a alma. Seria possível? Existiria tal coisa?</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei quanto tempo durou aquela &#8220;epifania&#8221;, contudo, minha contemplação foi bruscamente interrompida por fortes náuseas. De súbito, o  cheiro, a que pensara eu já estar acostumado, havia tornado-se tão insuportável, ao ponto de não aguentar-me de pé. Cai enquanto vi o mundo girar diante dos meus olhos. Meu peito ardia, tinha dificuldades de respirar e recobrar o controle sobre mim. Neste momento, ouvi mais uma vez a familiar voz de antes acalmando minha agonia. Ele convidou-me a encontrá-lo e deu-me um endereço. Foi ai que tudo escureceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Acordei sentado numa calçada, cercado por curiosos que ofereciam-me chá, livros e tratamentos espirituais. Aos poucos, recobrava a consciência e senti o ar lentamente entrando em meus pulmões. Mas o cheiro continuava. Vinha e ia com o vento e era muito mais forte&#8230;. nauseante como amoníaco, entorpecente como éter. Dei-me tempo suficiente para conseguir enxergar com lucidez e em seguida recebi ajuda para colocar-me de pé enquanto tentava educadamente recusar todos as demais ofertas de auxilio a preços módicos.<br />
O que havia acontecido? Na multidão nada havia mudado. Todos caminhavam e falavam da mesma maneira, mas algo ressoava diferente dentro de mim, que permanecia parado. Não conseguia aguentar o cheiro. Não conseguia esquecer a voz. Era Deus, e eu sabia que precisava ir ao seu encontro. E o endereço que Ele havia me dado, era ali mesmo naquela avenida.</p>
<p style="text-align: justify;">Caminhei como pude algumas centenas de metros até chegar ao endereço. Já havia passado por ali antes, mas talvez por causa da constante confusão, nunca havia prestado a devida atenção àquele lugar. Diferente das outras casas, deparei-me com uma cerca branca e baixa que separava a avenida de um extenso pátio interno onde ao fundo via-se um grande casarão numa colina de grama verde-oliva. Em frente a cerca, uma enorme confusão com gente enfurecida protestando, carregando faixas e cartazes .</p>
<p>Todo este tempo Deus morava na Avenida Religare? E naquele endereço? Como isto seria possível?</p>
<p><strong>Continua</strong></p>
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